a incrível trajetória de nogari, o versátil diretor que estudou cinema com béla tarr, dirigiu uma experiência em vr na ilha de Ingmar Bergman, filmou o underground de são paulo, e acaba de dirigir remotamente o novo clipe da superstar selena gomez

Por Duda Leite

Fernando Nogari, ou simplesmente nogari é um dos diretores que acompanhamos a carreira desde o início aqui no m-v-f-. nogari tem uma assinatura bastante reconhecível: cria narrativas com elementos bem brasileiros para artistas internacionais. já dirigiu clipes para ladytron, chris liebing & charlotte de witte, e agora para a popstar selena gomez. Nogari começou a se interessar mais seriamente pelo cinema quando descobriu o cineasta húngaro Béla Tarr, o mestre do chamado “slow cinema”, com quem acabou fazendo seu mestrado na Bósnia. versátil, além de seu trabalho com videoclipes e publicidade, em 2018 nogari foi até à Suécia, mais precisamente à Ilha de Fåro, filmar uma experiência em vr (realidade virtual) na casa do cineasta Ingmar Bergman, o resultado foi exibido na Mostra de SP.

Leia abaixo trechos de um depoimento dado por Nogari durante o curso As Histórias dos Videoclipes queer, organizado por este que vos escreve, e que aconteceu na plataforma do B_arco, no dia do lançamento mundial do clipe “Baila Conmigo” da Selena Gomez.

 

duda – você poderia nos contar o que te levou a fazer cinema?

nogari – É uma história bastante curiosa. Me formei em design mas sempre gostei muito de cinema. Sou de Curitiba, então o cinema era o lugar onde eu conseguia explorar algo que era além do meu universo. Venho de uma família tradicional de Curitiba, portanto estava sempre buscando opções para onde eu pudesse fugir. Eu fazia tudo o que podia para me aproximar do cinema. Quando completei 16 anos, fiz um curso que se chamava “tarkovsky e seus contemporâneos”. Foi meu primeiro encontro com o tarkovsky e um dos contemporâneos dele, curiosamente, era o Béla Tarr. E os filmes dele me tocaram profundamente. E eu nem sabia o motivo. Aqueles filmes de um diretor húngaro, filmados em outro lugar, com outras narrativas, mas aquilo me tocou. Eu acabei me formando em design. E em um certo momento resolvi que queria me aproximar do cinema. E nesse alinhamento maluco dos astros, soube que o Béla Tarr tinha aberto uma escola na Bósnia, em Sarajevo. Eu parei tudo que estava fazendo e me matriculei. Eu acabei sendo aceito como um dos alunos do mestrado. E em duas semanas, eu larguei tudo e fui para a Bósnia estudar com o Béla Tarr. Eu fiquei 3 anos lá, e voltei para SP em 2016 e desde então tenho trabalho em diferentes formatos, inclusive em publicidade. E eu sempre gostei muito de videoclipes, é um espaço onde eu posso experimentar temas que me interessam.

 

duda – o primeiro videoclipe oficial que você dirigiu foi o “the animals”, para a banda Ladytron, filmado em são paulo. como surgiu o convite para dirigir este clipe?

Nogari – O Daniel (Hunt), um dos integrantes da banda, é casado com uma brasileira e mora em são paulo há muitos anos. E a gente te alguns amigos em comum. Nos conhecemos e ele me chamou para dirigir este clipe. Quando eu dirigi este clipe, a banda estava separada fisicamente. Uma das integrantes estava na Inglaterra, outro nos Estados Unidos e o Daniel no Brasil. Portanto eu tive que criar um clipe onde a banda não apareceria. E a questão das narrativas, é algo que veio do Béla Tarr. Eu gosto de criar narrativas. O visual é super importante, mas eu gosto mesmo é de contar histórias. Criar experiências, que tenham alguma sensação. Curiosamente, no clipe “Liquid Slow” (que está concorrendo como Melhor Revelação Internacional no m-v-f-) que eu dirigi para a dupla de techno Chris Liebling & Charlotte de Witte, eles também não podiam aparecer. E, no clipe que eu acabo de lançar da Selena Gomez, ela também não podia vir à locação, dessa vez por causa da pandemia de Covid-19. Por diferentes motivos, nunca dirigi um clipe onde o artista aparece.

 

duda – antes de você ir para a produtora Iconoclast, você fez alguns trabalhos pelo Estúdio Banzai. Como foi esta trajetória?

nogari – Na real, o estúdio banzai ainda existe. Éramos quatro amigos de Curitiba, eu, o Thales, o Luan e o Rimon Guimarães. Em 2017, a VOID nos convidou para gravar um conteúdo que falasse sobre os jovens de São Paulo. Eu queria criar algo que fosse bem sensorial dessa experiência de música coletiva. Nós filmamos em duas noites, e o resultado acabou virando um documentário de 15 minutos. Foi um fim-de-semana incrível. São Paulo estava num momento muito pulsante. A noite tinha uma função quase política. Fomos indo de uma festa para outra, foi uma coisa bem livre. A participação da Ivana Wonder na Casa da Luz, por exemplo, foi algo que aconteceu ao acaso. Eu nem sabia que ela ia estar lá aquela noite. Como diz o Werner Herzog: “não peça licença, só peça desculpas”.

 

Duda – como surgiu o clipe “Liquid Slow” da dupla Chris Liebling & Charlotte de Witte?

Nogari – este clipe surgiu através da produtora onde estou agora, a Iconoclat. Como a produtora é bastante conhecia internacionalmente, eles me chamaram para um pitching para fazer o clipe do chris liebing & charlotte de witte. O único briefing que eu tinha, era de que tinha que ser algo pesado. E foi assim que surgiu este clipe. eu havia visto um filme chamado “A Noite dos Desesperados” (1969) do Sydney Pollack, sobre um grupo de pessoas que ficam dançando até cair durante a depressão dos EUA. Eu resolvi trazer essa ideia para o universo underground de São Paulo. Eu e a minha equipe fizemos este clipe como uma vontade de gritar contra tudo o que estava acontecendo naquele momento. Era um momento em que todo mundo queria sair nas janelas e gritar.

 

Duda – como surgiu a oportunidade para você dirigir o novo clipe da Selena Gomez?

Nogari – foi bem curioso. Uma das managers da gravadora havia visto o meu documentário exibido no Nowness. (Aquilo que os jovens chamam de música – ver link abaixo). E como a Selena ia lançar este álbum em espanhol, ela queria trabalhar com algum talento latino. Eu tive dois dias para criar a ideia do clipe. Eu mandei o projeto e fui escolhido. A Selena já havia feito um trabalho com a Iconoclast. Eu escrevi um clipe em que a popstar não aparece, algo bem arriscado. Mas, uma semana depois recebemos uma mensagem de que a Selena tinha adorado e queria fazer o clipe comigo.

 

Duda – quais foram as dificuldades de criar o clipe durante a pandemia de covid-19?

Nogari – Então, este foi justamente o desafio. A Selena não estava nem saindo de casa, eu precisava criar algo que ela pudesse fazer da casa dela em Los Angeles, em chroma-key. No fim, a pandemia deu uma amenizada em LA e ela topou ir gravar num estúdio. Era uma ideia muito arriscada. O produtor me disse: a Selena nunca vai aceitar produzir um curta seu. Mas no final tive a ideia de criar o clipe dentro do clipe, cujos personagens locais imitavam a coreografia no Brasil. Era um cronograma insano. Eu tinha que gravar remotamente com a Selena num sábado em Los Angeles, e com o Rawl em Miami, e na semana seguinte com os atores, no litoral do Ceará. Eu dirigi a Selena do no meu IPad, de uma pousada no Ceará, com conexão via rádio. Foi uma experiência bastante surreal.

 

E para finalizar, mais um vídeo dirigido por Nogari: